A moda precisa defender a democracia

Natalia Macedo

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A moda adora falar em liberdade. Liberdade para experimentar, misturar referências, desafiar padrões e vestir o que se tem vontade. Nas campanhas, essa palavra costuma aparecer acompanhada de mulheres confiantes, corpos em movimento e alguma promessa de transformação. Mas basta a conversa chegar à política para surgir o pedido: vamos deixar esse assunto de fora?

Tenho dificuldade com essa separação. Uma roupa envolve trabalho, recursos naturais, repertório cultural e decisões sobre quem terá condições de criar. Tudo isso passa pela política. A democracia está presente tanto na possibilidade de uma coleção incomodar quanto no direito de uma costureira denunciar as condições em que trabalha.

É por isso que considero a defesa da democracia uma responsabilidade de um setor que faz da expressão sua matéria-prima. E essa defesa precisa alcançar os bastidores que a imagem bonita nem sempre mostra.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o mundo gera cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano. O número ajuda a dimensionar o que fica depois da novidade, da compra por impulso e da coleção que rapidamente perde espaço para outra.

Diante disso, me parece confortável demais concentrar a responsabilidade na consumidora, como se toda a transformação dependesse de ela comprar melhor, pesquisar mais e acertar sempre. Empresas precisam responder pelo que produzem e pelo destino do que colocam no mercado. Defendo fiscalização, transparência e políticas ambientais capazes de confrontar interesses econômicos. Uma campanha em tons de verde não substitui esse trabalho.

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A democracia permite disputar essas decisões publicamente, investigar os resultados e cobrar quem governa. Sua qualidade também depende da capacidade de ouvir as pessoas que convivem com os impactos da produção, mesmo quando elas têm menos dinheiro e influência do que as empresas envolvidas.

Essa diferença de poder aparece de maneira brutal nas relações de trabalho. Em 2025, a Operação Resgate V retirou 16 trabalhadores bolivianos de uma oficina de costura em São Paulo. Segundo o Ministério Público do Trabalho, o empregador descontava as passagens para o Brasil do primeiro pagamento, criando um ciclo de endividamento que dificultava a saída dos trabalhadores.

É difícil levar a sério um discurso sobre valorização do feito à mão quando as mãos desaparecem da conversa sobre remuneração, descanso e segurança. A roupa pronta recebe luz, fotografia e storytelling. Quem a produziu também precisa receber atenção, direitos e pagamento digno.

Por isso, olho com desconfiança para discursos que tratam toda proteção trabalhista como obstáculo ao empreendedorismo. Uma indústria criativa deveria ser capaz de discutir sua viabilidade sem transformar a vulnerabilidade de alguém em vantagem competitiva. Fiscalização, acesso à Justiça e organização coletiva precisam fazer parte dessa discussão.

A liberdade artística também tem uma história que a moda brasileira conhece bem. Em 1971, Zuzu Angel apresentou em Nova York uma coleção que denunciava a repressão e tornava público o desaparecimento de seu filho, Stuart. Entre os bordados estavam pássaros engaiolados, referências militares e um sol atrás de grades. A criação carregava uma denúncia que a ditadura queria silenciar.

Lembrar Zuzu exige reconhecer o conflito político presente em sua obra. Há algo profundamente incoerente em celebrar sua coragem e, ao mesmo tempo, pedir que artistas de hoje sejam discretos quando questionam o poder.

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Qualidade da imagem melhorada por IA/Reprodução UFRJ

A Constituição de 1988 protege a expressão artística independentemente de censura ou licença. Essa garantia interessa à moda que provoca, à que discute gênero, à que enfrenta convenções e à que desagrada ao governante da vez. Uma liberdade que só vale para a arte com a qual concordamos seria bastante conveniente para quem deseja controlar o restante.

Mas criar exige também condições materiais. Uma pessoa pode ter talento, repertório e uma pesquisa extraordinária sem conseguir pagar a viagem que apresentaria seu trabalho a compradores. Pode dominar um saber transmitido por gerações e continuar distante dos espaços que distribuem reconhecimento.

É aí que as políticas culturais fazem diferença. O edital do Ministério da Cultura para o MICSUL 2026 incluiu design de moda e artesanato entre os segmentos contemplados, com bolsas para apoiar a participação dos selecionados no encontro sul-americano. É um exemplo concreto de como o poder público pode ampliar o acesso a oportunidades profissionais.

Defendo esse investimento com critérios públicos, transparência e avaliação dos resultados. O dinheiro público precisa ampliar as possibilidades de quem encontra portas fechadas, inclusive fora dos circuitos habituais de prestígio.

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Também importa quem participa da definição dessas prioridades. Nas propostas da quarta Conferência Nacional de Cultura, realizada em 2024, a moda apareceu entre os setores mencionados nas discussões sobre representação nos conselhos culturais. Participar desses espaços permite disputar o que será reconhecido, financiado e preservado. A costureira, a artesã e o criador independente precisam ter condições de entrar nessa conversa.

É a partir dessa compreensão que me posiciono à esquerda e voto em Lula. Defendo um Estado com responsabilidade sobre a proteção do trabalho, o enfrentamento das desigualdades e o acesso à cultura. A recuperação do status ministerial da Cultura, em 2023, depois de seu rebaixamento a secretaria no governo Bolsonaro, é uma diferença concreta que considero relevante nessa escolha.

Meu apoio convive com a cobrança por fiscalização efetiva, responsabilidade ambiental e recursos que cheguem a quem mais precisa. Continuarei exigindo resultados do governo em que voto. A participação democrática inclui essa independência.

A moda pode continuar nos oferecendo beleza, desejo e diversão. Eu quero tudo isso. Também quero poder olhar para uma peça e perguntar quem a fez, em quais condições e com que liberdade. Para um setor tão interessado em imaginar o futuro, defender as condições que permitem construí-lo deveria fazer parte do trabalho.

 

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