Victoria’s Secret está se reinventando para quem?

Natalia Macedo

Victoria’s Secret

Um sutiã de US$ 50 milhões garante uma manchete. A mulher que o veste precisa entregar o quê? A pergunta ficou especialmente interessante depois do Victoria’s Secret Fashion Show 2026, realizado em 18 de outubro, em Los Angeles. Na edição, Kylie Jenner estreou na passarela da marca usando o Fantasy Bra, criado com a joalheria Jacob & Co. e anunciado como o mais valioso dessa história. A peça reuniu milhares de diamantes e recolocou um dos símbolos da grife no centro da conversa.

Como operação de publicidade, a escolha é compreensível. Empresária, personalidade de televisão e influenciadora, Kylie leva consigo uma audiência que ultrapassa a moda. À Vogue, Adam Selman, diretor criativo da Victoria’s Secret, justificou a participação justamente por esse alcance cultural e pela intenção de surpreender o público. O Fantasy Bra voltava após sua última aparição em 2018.

Victoria’s Secret

Ainda assim, compreender a estratégia não significa considerá-la a melhor decisão criativa. Ao entregar um de seus momentos mais simbólicos a uma celebridade estreante no evento, o que a Victoria’s Secret comunica sobre as profissionais que ajudaram a tornar aquele palco desejável?

Durante anos, vestir o Fantasy Bra ajudou a consolidar a posição de modelos dentro do universo da marca. Adriana Lima, Alessandra Ambrosio, Heidi Klum, Candice Swanepoel e Jasmine Tookes estão entre os nomes que o usaram. A joia carregava também o peso dessas associações.

Por isso, havia outras possibilidades interessantes: celebrar uma veterana, convidar uma modelo afastada daquele circuito ou consagrar uma profissional de uma nova geração. Seria uma maneira de renovar o significado da peça a partir do próprio ofício de desfilar.

Kylie tem legitimidade para aceitar o convite. A discussão cabe à marca, que escolhe onde concentrar seu prestígio. Quando uma audiência gigantesca parece suficiente para ocupar qualquer posição de destaque, a experiência profissional corre o risco de virar um detalhe conveniente. E a passarela exige competências que o número de seguidores, sozinho, não demonstra.

É nesse ponto que Adriana Lima e Alessandra Ambrosio tornam a conversa especialmente boa. As duas estiveram no elenco de 2026, que também reuniu brasileiras como Carol Trentini, Daiane Sodré e Luíza Perote. Alessandra chegou à sua 20ª participação no evento. Há uma história concreta por trás da familiaridade que sentimos ao vê-la ali.

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Para mim, Adriana e Alessandra continuam sendo os grandes exemplos de como sustentar esse espetáculo. Existe uma desenvoltura na maneira como ocupam a passarela que faz a lingerie parecer integrada à cena. O olhar, a pausa, o sorriso e o movimento têm intenção, mas a execução preserva uma sensação de prazer.

Essa naturalidade é um efeito sofisticado de trabalho. Há técnica suficiente para que a gente possa esquecer a técnica.

Talvez seja isso que mais me interesse na sensualidade das duas. Elas parecem à vontade dentro da proposta. A roupa acompanha uma personalidade reconhecível, e o público encontra algo além de uma sequência de poses bonitas. Há humor, confiança e uma relação construída com aquele palco.

Dá vontade de atribuir essa facilidade às brasileiras. Prefiro reconhecer o talento dessas profissionais: transformar sensualidade em característica nacional seria reduzir a experiência e a individualidade que tornam cada uma tão interessante.

Também vale perguntar o que queremos dizer quando pedimos uma lingerie mais “natural”. Ninguém espera que asas gigantes e diamantes reproduzam uma terça-feira comum. O desfile vive de fantasia. A naturalidade que faz falta é a sensação de que a mulher participa daquela imagem com personalidade, em vez de apenas cumprir uma coreografia de sedução.

O limite aparece quando ser sexy vira uma obrigação executada diante da câmera. Quando cada expressão precisa confirmar o quanto aquela mulher é desejável, sobra pouco espaço para espontaneidade. A lingerie pode provocar, divertir e compor um personagem. Também deveria permitir diferentes maneiras de estar dentro dela.

Essa discussão precisa acompanhar qualquer tentativa de reinvenção da Victoria’s Secret. O desfile foi cancelado em 2019 em um contexto de queda nas vendas e críticas à imagem da marca e à falta de inclusão de diferentes corpos. A passarela voltou em 2024 carregando a expectativa de mudança.

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Valorizar Adriana e Alessandra não exige saudade dos padrões restritivos daquele período. A experiência das veteranas pode conviver com novos corpos, idades e expressões de feminilidade. Essa combinação tem potencial para produzir uma fantasia muito mais interessante.

Minha dúvida sobre 2026 está no lugar escolhido para concentrar a novidade. Colocar uma celebridade de enorme alcance no sutiã mais caro da história rende assunto. Renovar um desfile exige também uma ideia convincente sobre quem merece protagonismo e por quê.

A Victoria’s Secret poderia olhar com mais atenção para o que suas brasileiras continuam oferecendo: uma presença construída ao longo de anos, capaz de dar personalidade até ao figurino mais excessivo.

Cinquenta milhões de dólares em diamantes são um acontecimento. Fazer a gente lembrar da mulher depois de esquecer o preço continua sendo um talento.

 

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