Espetáculo Sentido incorpora Libras à dança contemporânea

Natalia Macedo

espetáculo Sentido

Como a Libras pode participar da criação de uma coreografia? No espetáculo Sentido, do Ballet Jovem Minas Gerais (BJMG), a Língua Brasileira de Sinais orienta escolhas de movimento, expressão facial e uso do espaço. Sob a direção de Maxmiler Junio, a acessibilidade participa da construção artística desde os ensaios.

Pensada para a comunidade surda e aberta também ao público ouvinte, a montagem tem estreia prevista para novembro. Entre palavras, poemas, gestos e silêncios, o que você vê em cena nasce do encontro entre corpo, língua e imagem.

Como a Libras entra no espetáculo Sentido

A pesquisa que sustenta a montagem acompanha Maxmiler há cerca de dez anos. Formado em Dança pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o diretor começou a investigar, durante a graduação, as relações entre Libras e dança contemporânea.

Nos ensaios, essa investigação se transformou em um trabalho com o elenco sobre os parâmetros da língua e suas possibilidades na criação dos movimentos.

“Pesquisei na faculdade o que da linguagem Libras contempla a dança. A dança contemporânea cria possibilidades. Dentro desse processo, a questão é o desdobramento. Estudei com o elenco os parâmetros da linguagem Libras, as práticas artísticas e o espaço visual. E, considerando os parâmetros da Libras, utilizei os da dança para fazer a cena”, explica Maxmiler.

Um gesto pode sugerir uma imagem ou uma ação sem reproduzir literalmente um sinal. A expressão facial, a posição do corpo e a relação com o espaço também participam da construção de sentido.

“A Libras não aparece no espetáculo como representação, ela é incorporada na dança, na sinalização. Cada movimento sugere, por meio do corpo e do sentido, uma camada de Libras ampliada. É poesia, palavras somadas aos parâmetros da Libras, do corpo, da relação, da expressão facial e do emaranhado de possibilidades dos dois universos”, afirma o diretor.

espetáculo Sentido

Uma artista surda participa da criação

A poeta e artista surda oralizada Edmeia Miriam Cupertino integra o processo como consultora de Libras. Sua participação traz para os ensaios questões que passam pela compreensão dos textos e pela experiência de quem pertence à comunidade surda.

“Quando vi o espetáculo ainda estava no começo, me deram dois textos para trabalhar. A maior dificuldade foi fazer os textos serem entendidos pelos surdos. Achei que seria melhor explicar em Libras com minhas próprias palavras, facilitando para os outros o entendimento”, conta Edmeia.

A consultoria aconteceu presencialmente e online, em diferentes etapas da criação. Edmeia começou sua trajetória artística há cerca de oito anos, incentivada a escrever e apresentar poesias em saraus. Em 2020, recebeu um prêmio pela poesia de estreia, “Refúgio”.

A dança acrescenta uma nova experiência a esse percurso. “Fiz teatro, filme e musical. Faltava a dança dar seu ar e mostrar seu potencial”, afirma.

Como pensar a música para quem não ouve?

A música também participa de Sentido. Na criação, a equipe investiga a vibração, a pulsação e a dimensão sensorial do som, buscando outras maneiras de construir essa relação com o público.

“Eu entendo a música como uma camada de corpo, de música. O projeto se chama ‘Sentido’. Mas o que é o silêncio? Temos a pulsação, o interno do coração, isso gera algum tipo de som. Que música seria possível?”, questiona Maxmiler.

Essa pergunta orienta uma experiência que passa pelo movimento, pela imagem, pela vibração e pela relação entre os corpos. Para o público ouvinte, a proposta também abre espaço para perceber a cena por essas diferentes vias.

Um convite para conhecer a cultura surda

O contato com a comunidade surda faz parte do percurso de pesquisa do diretor e das escolhas que levaram à montagem.

“Esse meu desejo em trabalhar com Libras tem dez anos. Nesse tempo, fui me aproximando da comunidade surda, buscando na universidade matérias que não eram obrigatórias, que envolvessem a dança e as necessidades especiais. Eu sou um artista do movimento. Essa camada me aproxima da comunidade”, afirma.

Com a estreia, Maxmiler espera que o interesse continue depois que o público sair do espetáculo, despertando a vontade de aprender Libras e conhecer outras perspectivas sobre acessibilidade.

“Eu gostaria que o público tivesse o interesse em compreender melhor a comunidade surda, aprender Libras. É uma camada nova, um papo curtinho, parâmetros, imagens, desejo de comunicar, poesias, relação artística e sair dali com desejo de aprender mais sobre acessibilidade, assim como se envolver com a comunidade surda”, confessa o artista.

Sentido integra o projeto “Ballet Jovem apresenta: Silêncios em Movimento”, aprovado na LMIC 2025 (Multilinguagens), do Fundo Municipal de Cultura. 

Criado em 2007, o BJMG é um programa de formação que reúne jovens bailarinos de diferentes regiões do país, com aulas, ensaios e processos criativos voltados à profissionalização. Segundo o programa, mais de 50 integrantes já ingressaram em companhias profissionais ao longo de sua história. 

 

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