Metade do mundo, um quarto das notícias: por que a representação das mulheres na mídia não avança?
A frase que resume o atual cenário da comunicação global é tão curta quanto perturbadora: “metade do mundo, um quarto das notícias”. Embora sejamos 50% da população global, a nossa presença nos veículos de comunicação permanece travada em apenas 26%.
O estudo conduzido pelo Projeto de Monitoramento Global da Mídia (GMMP) revelou que, nos últimos cinco anos, o avanço foi praticamente nulo. O jornalismo brasileiro, em especial, segue repetindo padrões patriarcais que nos colocam à margem das pautas mais importantes do cotidiano.
O abismo entre quem noticia e quem é consultado
O relatório detalha o funcionamento dessa invisibilidade. Quando aparecemos nas reportagens, o nosso papel costuma ser restrito a temas específicos, como saúde, ciência e violência de gênero.
A discrepância aumenta quando observamos quem é chamado para dar opinião técnica. Enquanto os homens são frequentemente ouvidos como especialistas e autoridades no assunto, nós somos convocadas majoritariamente para dar depoimentos pessoais ou compartilhar vivências subjetivas.
Em uma matéria sobre temas complexos, é comum que médicos homens sejam a voz da “técnica”, enquanto mulheres ficam com o relato da “emoção”. Esse padrão reforça um estereótipo antigo: o de que a voz feminina não possui o mesmo peso intelectual ou de autoridade que a masculina.
A situação é ainda mais crítica nas chamadas hard news — notícias de política, economia e criminalidade. No jornalismo esportivo, a invisibilidade é absoluta, com homens dominando entre 73% e 92% do conteúdo produzido.
O efeito espelho e a falta de diversidade
O estudo identificou que, mesmo quando uma reportagem é assinada por uma mulher, a busca por fontes femininas não aumenta de forma expressiva. Isso demonstra que a reprodução de padrões masculinos é estrutural e atravessa toda a cadeia de produção da notícia.
Além disso, a diversidade é uma promessa que ainda não saiu do papel. Apenas 5% das fontes consultadas são mulheres racializadas. O protagonismo, quando ocorre, quase sempre recai sobre mulheres brancas e de classe média.
Outro ponto que exige atenção urgente é a forma como somos enquadradas. O relatório aponta que 73% das vezes em que aparecemos, somos definidas pelo contexto familiar — como mães ou donas de casa.
A violência contra a mulher, que registra recordes sucessivos no Brasil, também recebe uma cobertura limitada. Temas estruturais como equidade, legislação e direitos humanos ocupam apenas 8% das pautas que deveriam explicar as raízes dessas violações.
Para mudar esse cenário, a estratégia precisa ser ampla. Não basta incluir mulheres na redação; é necessário mudar a escolha dos temas, a seleção das fontes e a forma como enquadramos cada história.
A estagnação que vemos nos dados não é acidental, é reflexo de um jornalismo que ainda precisa aprender a ouvir a metade do mundo que ele insiste em deixar de fora. A mudança cultural exige coragem para questionar a hierarquia que ainda define quem tem autoridade para falar e quem deve apenas escutar.
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