segunda-feira, 11 de maio de 2026
Identidade

Muito além do vintage: como a economia circular está sendo construída por mulheres pretas e periféricas

Por Natália Macedo · 11 de maio de 2026 · 2 min de leitura Compartilhar
economia circular

Se você der uma volta pelas redes sociais ou pelas ruas dos centros urbanos, vai notar que o “garimpo” deixou de ser um nicho para se tornar o centro das atenções. O consumo de segunda mão não é mais apenas sobre preço baixo, mas sobre uma mudança profunda de comportamento. A economia circular no Brasil tem rostos muito bem definidos: mulheres que transformam o descarte em oportunidade, embora ainda enfrentem o peso da invisibilidade.

De acordo com a pesquisa “Retrato dos Brechós e Bazares no Brasil 2025”, realizada pela Aliança Empreendedora e Renata Abranches Branding, o setor é um reduto feminino e diverso. Impressionantes 98% das pessoas à frente desses negócios são mulheres, sendo que 65% delas se autodeclaram negras. O dado revela que a sustentabilidade no país tem uma base social pulsante, mas que ainda luta para se profissionalizar.

O propósito ambiental versus a barreira da renda estável

Para a maioria dessas empreendedoras, o motor que liga o negócio todos os dias é a causa: 72% entraram no mercado motivadas pelo desejo de gerar um impacto ambiental positivo. Elas são as verdadeiras curadoras da moda, retirando toneladas de têxteis dos aterros sanitários e dando vida nova a peças que seriam lixo.

No entanto, o propósito esbarra em uma realidade financeira dura. Mais da metade (53%) das donas de brechós fatura até um salário mínimo por mês, e para 50% delas, o garimpo ainda não é o suficiente para manter a casa sozinha. É o retrato da mulher brasileira que faz o mundo girar com o que tem em mãos, mas que ainda opera sob o radar das políticas públicas de incentivo.

Informalidade e a sobrecarga da “mulher orquestra” na economia circular

A economia circular cresce, mas a estrutura desses pequenos negócios ainda é solitária. A informalidade é a regra, não a exceção: 61% das empreendedoras não possuem CNPJ e, entre as que têm, 89% são MEIs. Essa falta de formalização dificulta o acesso ao crédito e a treinamentos de gestão que poderiam escalar esses negócios.

Além disso, a jornada é exaustiva. Imagine acumular as funções de:

  • – Curadoria técnica de peças;
  • – Logística de entrega;
  • – Produção de conteúdo para Instagram e WhatsApp;
  • – Atendimento ao cliente.

Cerca de 73% dessas mulheres trabalham sozinhas e 64% são mães, dividindo o tempo entre o estoque e o cuidado com a família. Quase metade mantém o negócio operando sete dias por semana. Os brechós são, sim, o futuro da moda, mas para que essa engrenagem seja justa, precisamos olhar para quem segura a ponta dessa corda: mulheres que precisam de menos romantização e mais infraestrutura.

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