terça-feira, 12 de maio de 2026
Cotidiano

A ironia da desigualdade salarial: onde somos exceção, o salário é maior

Por Natália Macedo · 11 de maio de 2026 · 2 min de leitura Compartilhar
desigualdade salarial

Crescemos acreditando que dominar um mercado de trabalho seria a garantia certa de valorização financeira. A lógica dita que, ao sermos a maioria esmagadora em uma profissão, o respeito e a remuneração justa seriam consequências naturais da nossa presença. Mas a desigualdade salarial tem regras próprias e bastante cruéis.

Um estudo recente revelou um cenário no mínimo frustrante: o único lugar onde o nosso contracheque supera o masculino é justamente onde quase não temos espaço para trabalhar.

A desvalorização das áreas de cuidado

Os dados da pesquisa do FGV IBRE mostram que a matemática do mercado pune severamente as profissões que envolvem ensino e acolhimento. No setor de educação, saúde e serviços sociais, nós representamos 74% da força de trabalho.

Mesmo liderando e movimentando essas áreas inteiras, recebemos 39% a menos que os homens que exercem funções semelhantes. A situação fica ainda mais crítica no trabalho doméstico, que é composto por 92% de mulheres e carrega um histórico imenso de precarização.

A mensagem silenciosa que o sistema corporativo nos passa é muito direta. Quando uma área se torna majoritariamente feminina, o trabalho em si passa a valer menos financeiramente.

A construção civil e a raiz da desigualdade salarial

O contraponto dessa pesquisa escancara o problema de forma gritante. O setor de construção civil é a grande exceção à regra, sendo a única área mapeada em que a nossa remuneração consegue ser maior que a dos homens.

O detalhe que explica essa distorção é a nossa completa ausência. Nós ocupamos 4% das vagas nesse mercado. Nós só conseguimos ultrapassar a barreira de renda nos espaços onde somos uma minoria absoluta e quase invisível.

Isso prova que a desigualdade salarial não tem relação com falta de qualificação, estudo ou ambição da nossa parte. O mercado penaliza financeiramente as profissões historicamente associadas ao feminino. O nosso desafio não é tentar migrar em massa para redutos dominados por homens, mas exigir que os setores que nós construímos e sustentamos todos os dias paguem a fatura no valor integral que a nossa expertise custa.

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